
A praga exótica
Caramujo africano veio ao Brasil como iguaria e se transformou em molusco invasor que ameaça seriamente o meio-ambiente
Fevereiro/2005
Edição 58
Caramujo gigante africano pode ocasionar a morte,
pois transmite os vermes que ocasionam a peritonite e a meningite
O caramujo africano é uma espécie exótica invasora. Tais espécies representam, atualmente, a segunda maior causa de perda de biodiversidade no planeta. Só perdem para os desmatamentos. Além das doenças que pode transmitir, o caramujo ataca, destrói plantações e compete por espaços com outros moluscos da fauna nativa, podendo levá-los à extinção
Em todo Brasil, Ibama e prefeituras estão realizando a coleta e eliminação adequada dos caramujos. A campanha é itinerante e realizada nos bairros onde forem detectados os moluscos invasores. As lideranças comunitárias estão sendo treinadas para ajudar na identificação correta do molusco. O mesmo acontece com agentes de saúde e professores da rede pública. O trabalho é feito diariamente e até que se consiga reduzir significativamente a quantidade de caramujos que infestam os municípios, sobretudo nos terrenos baldios.
O caramujo gigante ataca e
compete por espaços na fauna
A espécie é nativa do leste e nordeste africanos e chegou ao Brasil como alternativa econômica. A idéia inicial seria comercializá-lo a um preço inferior ao escargot. Importado ilegalmente, foi introduzido em fazendas no interior do Paraná e escapou para o meio ambiente, adaptando-se perfeitamente em várias regiões brasileiras. Desde então, passou a ser chamado também de “falso-escargot”.
Os problemas causados pelo crescimento da população do caramujo gigante africano, no Brasil, começaram a ser notados há cerca de quatro anos. Entre equívocos e exageros, a divulgação de que os animais transmitiriam doenças capazes de levar à morte fez com que o pânico obscurecesse questões fundamentais, como a perda da biodiversidade nos ecossistemas nativos frente a esta fauna exótica. A pesquisadora do Departamento de Malacologia do Instituto Oswaldo Cruz, Silvana Carvalho Thiengo, conta que o Achatina fulica, como é chamado cientificamente o caramujo africano, foi introduzido no país em substituição ao escargot na década de 1980. O fracasso das tentativas de comercialização levou os criadores, por irresponsabilidade ou desinformação, a soltar os caramujos no ambiente silvestre.
“O caramujo africano está presente na região amazônica, o que é preocupante uma vez que compete com a fauna nativa e pode causar desequilíbrios ecológicos”, a malacologista esclarece. “Em Ilha Grande, no litoral do Estado do Rio de Janeiro, a situação já é emergencial pela quantidade de animais e demanda uma intervenção do poder público para o controle da praga e esclarecimento da população”.
Espécie é nativa da África e chegou
ao Brasil na década de 80
A especialista confirma que o caramujo africano pode de fato transmitir ao homem os vermes que causam peritonite e meningite. “Potencialmente, esse molusco pode hospedar dois parasitos. O primeiro deles é o Angiostrongylus cantonensis, responsável por um tipo de meningite que ocorre principalmente na Ásia, havendo alguns casos descritos em Cuba, Porto Rico e Estados Unidos”, resume. “Embora no Brasil não haja registro dessa parasitose, sua introdução é possível, principalmente em regiões próximas às áreas portuárias, através de ratos de navios que chegam de países asiáticos”, alerta.
“Além da questão ambiental e da saúde humana e animal, esses caramujos são também considerados pragas agrícolas pois se alimentam vorazmente de vários tipos de plantas ornamentais e de culturas de subsistência”, observa a especialista. “A criação do caramujo africano visando a comercialização, em vários países, é terminantemente proibida.”Mato Grosso está entre os estados que receberam o plano de ação do Ibama para o controle e combate ao caramujo africano”. A informação é do analista ambiental Fábio Faraco, que fez levantamento dos municípios que apresentam o problema. De acordo com o biólogo, o Ibama está implantando o programa em alguns municípios do país. “Ao todo são 23 estados. Como não temos estrutura suficiente para atender a todos de imediato, estamos fazendo as visitas in loco para que assim possamos implantar o programa piloto em pelo menos um município por estado atingido”, explicou.
O analista disse ainda que, para o plano funcionar, as prefeituras têm papel fundamental, já que detêm as informações sobre a presença do molusco. A professora doutora em Malacologia (ciência que estuda os moluscos) e pesquisadora da Universidade Federal do Mato Grosso, Cláudia Callil, que acompanha as ações do Ibama, disse que, por enquanto, 11 municípios declararam a presença do caramujo africano. O último a se manifestar oficialmente foi Rondonópolis. Mas o número de estados e municípios em todo país pode ser maior. Fábio Faraco contou que em algumas regiões as pessoas desconhecem os males causados pelo caramujo.
Para a pesquisadora Cláudia Callil, o caramujo representa uma ameaça à biodiversidade. Em Mato Grosso, a ameaça mais direta do caramujo africano é contra o caramujo nativo conhecido como “aruá”, utilizado por índios para alimentação e confecção de artesanato. A espécie está na lista de animais ameaçados de extinção.
Uma das grandes preocupações é o fato do caramujo africano se reproduzir rapidamente. Relatório do Ibama mostra que o animal pode produzir 500 ovos por ano. “Ele é muito adaptável, come até papelão, isopor e sola de sapato. Imagine isso em um lixão”, explicou Cláudia Callil.
No continente africano o molusco
já causou diversas mortes
Por conta desses invasores o Ibama nacional criou a Coordenadoria de Manejo de Fauna na Natureza, o Comfan. Fábio Faraco, que é membro da coordenadoria, explicou que com a criação do Comfan o Ibama pretende ampliar o combate e o controle das espécies prejudiciais ao homem e ao meio ambiente. “Por enquanto temos catalogadas quatro espécies que estão em estudo para controle e combate. Duas consideradas exóticas e invasoras, da qual se destaca o caramujo africano. A outra é o javali. Duas nativas e também invasoras: a catuvita (espécie de papagaio) e a capivara”, explicou o biólogo. A coordenadoria faz parte da Diretoria de Fauna e Recursos Pesqueiros do Ibama.
A Secretaria de Estado da Saúde do Paraná alerta para a presença do caramujo gigante africano em 14 municípios das 22 regionais de saúde. Esse animal foi introduzido no estado em 1994 e, ainda hoje, causa problemas ambientais, porque inibe o desenvolvimento do caramujo brasileiro, e da agricultura, uma vez que se alimenta das plantações. Até hoje, não foi registrado caso de contaminação no Brasil, mas na África, seu país de origem, o molusco já causou diversas mortes. Como medida preventiva, as pessoas que encontrarem esse caramujo devem incinerá-lo e avisar imediatamente a vigilância sanitária.
http://www.cidadesdobrasil.com.br/cgi-cn/news.cgi?cl=099105100097100101098114&arecod=19&newcod=866