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Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

Jardim do Éden


Malena



Certa pessoa adulta do sexo masculino habituara-se a acumular solidões como quem guarda pequenas moedas num saco escondido. Considerava malucos aqueles que defendiam que o ser humano se destacava pela capacidade de sociabilização. Os homens eram maus, inúteis. Só serviam para causar problemas uns aos outros. Não conseguiam criar verdadeiras amizades. Isso pressupunha que deveria haver uma abdicação do egoísmo. E qual era o animal que não gostava de roer o seu osso em paz, sem perturbações, sem partilhas?

Sendo um homem solitário, Adam não deixava de respirar. Por conseguinte, via-se obrigado a cumprir alguns dos rituais básicos da espécie: defecar, urinar, dormir, comer. E mais: tinha o vício dos livros. Chegava a sorrir perante a palavra escritor. Gostava tanto de palavras que vivia rodeado de papel e de canetas. Muitas vezes, com os olhos cansados de olhar para os seus textos, saía para a rua. No entanto, como não conhecia ninguém, nunca tirava os olhos do chão. E, quando alguém do passado o reconhecia e o chamava à distância, ele fingia não ouvir. Mas há-de sempre chegar o dia em que quem tem olhos e consegue ver é atingido pelos raios solares.

Ela chamava-se Eva e não gostava de escrever. Adam, que na maior parte dos dias não descolava o queixo do pescoço, viu-a a caminhar ao longe com cara de quem o poderia deitar abaixo com um só golpe. E a verdade é que, mal passou por ele, Eva deixou-lhe o coração pronto a explodir. Só não rebentou porque, no ponto mais alto do batimento cardíaco, o rapaz olhou para o céu, pedindo: «Eu mudo tudo, meu Deus, mas dá-me a oportunidade de a ter.» O sangue nas bochechas, o estômago colado às costas, o suor a escorrer testa abaixo. A vontade de cair para o lado, desmaiar, vir uma ambulância e levar o corpo para a enfermaria ou para dentro do féretro. Sendo fermentativo, o sentimento de A por B pode chegar ao topo de uma montanha, e daí ao céu e às estrelas.

Adam estava apaixonado por Eva. «Se existes, meu Deus, vais fazer com que esta mulher seja minha. Minha, só minha, até ao fim dos tempos.» Ela olhou para trás e sorriu. «Anda cá.» Ele foi. Ela abraçou-o.

O que fazer depois dos gestos? Nada. Deixar-se levar pelos acontecimentos. «Na tua casa ou na minha?» Ele preferia na dela. Chovia muito. Apanharam um táxi. Quando saíram da viatura, ainda caía água de lá de cima. Por esse motivo, tiveram que correr para se abrigarem. Ele abriu a gabardina e abrigou-a. «Pareces envergonhado», sussurrou ela. «Não costumo estar com pessoas.» Ela sorriu, julgando estar perante uma piada sedutora. «És a minha primeira namorada.»

A subir o prédio, ela rasgou-lhe a camisa com as unhas e pôs desgrenhado um cabelo habitualmente certinho. Ele pegou-a pela cintura e lambeu-lhe o pescoço. Os sapatos vermelhos dela ficaram pelo caminho. Na cama, todos nus, falaram a língua universal do sexo que toca no sexo. Apareceu a noite.

Naquele dia, Adam ganhou material para escrever sobre a dor.

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